O texto de Rubem Alves sobre “escutatória” faz muito sucesso. É um texto excepcional. A competência do escritor nos estimula a refletir sobre a importância do silêncio. Mostra como podemos aprender sem dizer palavras, e, por incrível que possa parecer, sem ouvi-las. Basta deixar que o silêncio de fora se encontre com o silêncio que está dentro de nós mesmos.

Uma chacoalhada. O autor inicia sua reflexão com uma informação bombástica e instigante: “Sempre vejo anunciado cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular”.

O autor pondera: “Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia”. Assim aprendemos. Além de aprendermos, quando fazemos silêncio depois de o outro ter falado também demonstramos respeito e consideração pelo que escutamos.

Se saber escutar é tão importante, por que algumas pessoas não escutam?  Entre muitas causas estão a vaidade, o orgulho, a arrogância e o fato de alguns não terem mesmo noção da importância de escutar.

Rubem Alves contou que quando esteve em um mosteiro suíço todos falavam pouco. E que o silêncio chegava a ser total nas liturgias de que participava três vezes ao dia. Ele ficou impressionado com o ambiente silencioso. A maneira competente como descreveu o cenário calmo, tranquilo e aconchegante daquela experiência faz com que o leitor sinta também um clima de paz e bem-estar.

Maurice Maeterlinck é outro autor que fala do silêncio. Ele escreveu obras extraordinárias e ganhou o prêmio Nobel de literatura em 1911. Em uma de suas obras mais importantes “O tesouro dos humildes”, publicado em 1896, o escritor belga diz: “Dir-se-ia que sua alma não tem face. Nós não nos conhecemos ainda, escrevia-me alguém que eu muito amava; não tivemos ainda coragem de nos calar juntos”.

Dizia também que “a palavra é do tempo, o silêncio é da eternidade”. E na mesma linha acrescentou que “as abelhas só trabalham no escuro; o pensamento, no silêncio; e a virtude, no segredo”.

Tudo muito bonito e correto, porém – cuidado! Embora não haja como contestar a importância do silêncio e da relevância de saber escutar, a vida não costuma ser benevolente com quem só escuta e fica em silêncio. Se um profissional exerce funções relevantes ou pretende ocupar postos hierárquicos de destaque, as pessoas não esperam que ele entre mudo e saia calado de uma reunião importante. Há expectativa de que diga algo. E algo significativo.

Ainda que não tenha nada para dizer, deverá ouvir atentamente o que estão debatendo e fazer algum comentário a respeito dos temas que estão sendo discutidos. Dessa forma, sem ficar quieto quando deveria se manifestar se mostrará interessado e participativo.

É preciso saber o instante certo para ouvir, para ficar em silêncio e para falar. Se aprendermos a falar na hora certa e soubermos escutar e ficar em silêncio no momento apropriado, encontraremos o equilíbrio de que precisamos para nos relacionarmos e nos comunicarmos bem com as pessoas.

 

Reinaldo Polito

Mestre em Ciências da Comunicação, professor de oratória, palestrante e escritor. É professor de comunicação oral no curso de pós-graduação de Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas, da ECA-USP. Publicou 25 livros com mais de um milhão de exemplares vendidos em todo o mundo. Seis de suas obras entraram para as listas dos livros mais vendidos do país. Seu site www.polito.com.br

 

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