Talvez você já tenha ouvido falar do Guarda Luizinho. Ele trabalhou como guarda de trânsito nos anos 1970 em frente ao prédio do Mappin, no cruzamento da Rua Xavier de Toledo com a Praça Ramos de Azevedo.

Numa atividade onde tudo é feito sempre da mesma maneira ele conseguiu se destacar. Se um carro parasse sobre a faixa de pedestres, de maneira bem-humorada abria as portas dos dois lados do veículo e pedia que algumas pessoas passassem por dentro. Conseguiu se destacar e deixar seu nome na história por causa do seu jeito próprio de ser.

Quantos professores que tivemos ensinando a mesma matéria e uns mais que outros se destacaram porque também fizeram a diferença. Jamais vou me esquecer do professor Ulisses Ribeiro. Ele conseguiu ser querido por todos que frequentaram suas aulas de matemática, uma matéria que geralmente provocava muita resistência nos alunos.

Magrinho, sorridente, simpático sabia não só o nome de cada um dos alunos, como também de seus pais. Tinha interesse genuíno nas pessoas. Quando percebia alguém desatento sacava um pedacinho de giz do bolso do jaleco e com pontaria impressionante acertava a testa do aluno. Todos riam, se divertiam e aprendiam. Quando faleceu, a cidade de Araraquara, no interior de São Paulo, parou para homenageá-lo. Estavam reunidas ali várias gerações dizendo obrigado ao admirável mestre. Fez história. Fez a diferença.

Recentemente recebi um e-mail de um garçom, Tinti Marco, que durante décadas também fez a diferença com seu trabalho preparando com maestria o lendário Fettuccine Alfredo, no não menos lendário Restaurante Alfredo Di Roma. Ele me escreveu para desejar sucesso e realizações neste ano. Na verdade estava se despedindo de alguns clientes com quem teve contato durante toda sua vida de trabalho naquele restaurante.

Tinti Marco com sua roupa branca, gravata borboleta preta, calvo e sempre elegante preparava em rigorosos quarenta segundos os pratos que seriam servidos. Quando atendia um casal, entregava sorridente a travessa original para a mulher desejando buona fortuna, e o segundo prato ao homem. Ora, preparar um prato de fettuccine para misturar bem o macarrão com o molho branco não parece ser tarefa muito especial. Nas mãos de Tinti Marco, entretanto, era. Voltei a Roma recentemente para tratar da reedição do meu livro na Itália e fui ao Alfredo. Senti um vazio enorme, pois Tinti já havia se aposentado.

Tinti Marco soube fazer história e a diferença com seu trabalho. Assim como o Guarda Luizinho, o professor Ulisses Ribeiro e tantos outros que cruzam a nossa vida esse garçom fez com que uma atividade comum e exercida por tantos ao redor do mundo fosse destacada.

Essa é uma boa reflexão para todos nós. Afinal, desenvolvemos o nosso trabalho com a paixão devida para conseguirmos assim fazer a diferença? Ou apenas cumprimos com disciplina o que for preciso fazer? Sempre há tempo para uma mudança de postura. Talvez seja esse o caminho para que possamos nos sentir realizados e felizes.

Reinaldo Polito

Mestre em Ciências da Comunicação, palestrante, professor de expressão verbal e autor consagrado. www.polito.com.br

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