Outro dia estava conversando com uma amiga e me chamou a atenção como é desafiador falarmos com o coração, falarmos de nossos sentimentos. Acredito que muito disso tenha haver com medo, culpa e tristeza; sentimentos que podem ficar camuflados por um bom tempo. Quando temos essa dificuldade de reconhecer e até mesmo expressar nossos sentimentos, damos “dicas” para que a outra pessoa entenda o que pensamos ou perceba o que sentimos.

Na grande maioria das vezes essa estratégia não tem resultados positivos, por “n” razões a outra pessoa pode não entender nossas dicas, nossos sentimentos ou perceber nossas necessidades… se não falarmos o que sentimos e o que é importante para nós de forma direta, deixamos uma brecha para que o outro entenda o que quiser.

Entre o que pensamos e sentimos e o que o outro entende, há uma distância bastante grande. Nosso julgamento pode alimentar expectativas e muitas vezes nossa criatividade transforma algo simples em “monstrinhos”, que vão crescendo de tal forma que a nossa imaginação acaba se transformando em uma realidade que é só nossa.

Como reconhecer meus sentimentos? E como expressá-los sem me machucar?

Em geral, a busca pelo autoconhecimento nos ajuda a reconhecer nossos sentimentos, entender a relação deles com nossas emoções, o que faz disparar essas emoções e como podemos ter gestão sobre elas. É fato que quando temos posse dessa informação, quando os sentimentos são entendidos e expostos, podemos nos sentir vulneráveis e isso causa certo desconforto.

Marshal Rosemberg diz em seu livro de comunicação não violenta que é justamente na vulnerabilidade que nos conectamos com o outro, e que isso pode nos ajudar a resolver conflitos internos e externos. A pesquisadora Brené Brown entende que a vulnerabilidade significa a disposição de se expor, de se expressar de uma forma autêntica e franca, de fazer coisas sem garantia, de correr riscos. Quando as pessoas se desarmam e se arriscam a tirar a armadura que as protegem, abre-se também às experiências que trazem propósito e significado às suas vidas. A sensação de vulnerabilidade não é confortável, mas também não é dolorosa.

Costumo dizer que temos uma MARTA dentro da nós, que são os cinco sentimentos básicos do ser humano: Medo, Amor, Raiva, Tristeza e Alegria. Recomendo sempre aos meus coachees um exercício que pode ajudar na descoberta desses sentimentos:

Caderninho das emoções – compre um caderninho (de preferência pequeno) e escreva em cima de cada página um sentimento: Medo – Amor – Raiva – Tristeza – Alegria e no final do dia, ou se preferir na hora que acontecer, escreva que ação gerou tal sentimento em você.

Exeemplos: na página de raiva você pode colocar: “quando aquela pessoa me ligou 3 vezes, na última vez eu fiquei com muita raiva”; na página de alegria: hoje fui almoçar com um amigo que não via há muito tempo; e assim por diante. Depois de 30 dias você pode revisitar essas páginas e entender qual é o gatilho de seus sentimentos – ex: sempre que alguém é insistente me dá raiva, sempre que estou com amigos me dá alegria.

Quando reconhecemos os gatilhos de nossos sentimentos, podemos ter gestão sobre eles e ser inteligentes emocionalmente. Se eu já sei que estar com amigos me da alegria, vou tentar ficar muitas vezes com amigos; se já sei que quando uma pessoa insiste em algo me dá raiva, então vou mudar meu discurso para ela não insistir. Assim podemos ter relações mais saudáveis.

Voltando ao ponto inicial de nossa conversa, os relacionamentos que tiverem a sorte de que os envolvidos se expressem com sentimentos, mesmo sabendo que isso pode lhes deixar vulneráveis, serão mais verdadeiros, terão mais conexões e menos conflitos.

Lucila Marques – Senior Coach – lucila@lucilamarques.com.br – www.lucilamarques.com.br